24 dezembro 2016

Noite de Natal

   - Vou morrer esta noite - pensou o Cavaleiro -. 
   Então lembrou-se da grande noite azul de Jerusalém toda bordada de constelações. E lembrou-se de Baltasar, Gaspar e Melchior, que tinham lido no céu o seu caminho. O céu aqui era escuro, velado, pesado de silêncio. Nele não se ouvia nenhuma voz nem se via nenhum sinal. Mas foi em frente desse céu fechado e mudo que o Cavaleiro rezou.
   Rezou a oração dos Anjos, o grande grito de alegria, de confiança e de aliança que numa noite antiquíssima tinha atravessado o céu transparente da Judeia. As palavras ergueram-se uma por uma no puro silêncio da neve:
   - Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
   Então na massa escura dos arvoredos começou ao longe a crescer uma pequena claridade.
   - Deus seja bendito - murmurou o Cavaleiro -. Deve ser uma fogueira. Deve ser algum lenhador perdido como eu que acendeu uma fogueira. A minha reza foi ouvida. Junto dum lume e ao lado de outro homem poderei esperar pelo nascer do dia.
   O cavalo relinchou. Também ele tinha visto a luz. E reunindo as suas forças, o homem e o animal recomeçaram a avançar.
   A luz continuava a crescer e à medida que crescia, subindo do chão para o céu, ia tomando a forma dum cone.
   Era um grande triângulo radioso cujo cimo subia mais alto do que todas as árvores.
   Agora toda a floresta se iluminava. Os gelos brilhavam, a neve mostrava a sua brancura, o ar estava cheio de reflexos multicolores, grandes raios de luz passavam entre os troncos e as ramagens.
  - Que maravilhosa fogueira - pensou o Cavaleiro -. Nunca vi fogueira tão bela.
   Mas quando chegou em frente da claridade viu que não era uma fogueira. Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, o grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, estava coberta de luzes. Porque os anjos do Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.

   Esta história, levada de boca em boca, correu os países do Norte. E é por isso que na noite de Natal se iluminam os pinheiros.

excerto de O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen

28 novembro 2016

Piadinha #2

(Desde já, as minhas desculpas às loiras. O que se segue é apenas para fins humorísticos e não representa uma opinião.)

Um bêbado para a mulher, que é loira:
- Casar contigo até trouxe vantagens.
- Ai sim?! Quais?
- Pelo menos posso estacionar no lugar dos deficientes.


14 julho 2016

Génesis

Sim, é aquilo que pensam: vou escrever sobre a Bíblia. Bem, sobre o primeiro livro, pelo menos. Antes de começar, devo salientar que não sou uma pessoa de fé nem tenho religião, embora tenha sido introduzida ao Cristianismo. Ainda que rejeite a religião, admito que, inevitavelmente, fui e sou de alguma forma influenciada pelos seus princípios, pois é a religião dominante na sociedade portuguesa. Apesar de não ser crente, aceito quem escolhe sê-lo.

Comecei a ler a Bíblia por curiosidade. Já o tinha feito no passado, pela mesma razão, mas rapidamente desisti, porque tentei construir uma árvore genealógica mental da família de Adão e Eva e dei um nó no cérebro. É ainda pior que a família Buendía de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez! Desta vez consegui chegar ao fim do Génesis, porque resolvi ignorar tudo isso. Cedo fiquei chocada com o que lia, pois difere enormemente daquilo que é apregoado pela Igreja Católica hoje em dia.

Para começar, a poligamia e/ou o adultério parecem ser frequentes. Especificamente, um homem pode ter diversas mulheres, quer sejam esposas ou não; o oposto não me parece que fosse aceitável. Depois, a escravidão também é comum e aceitável, o que significa que afinal nem todos os Homens são iguais aos olhos de Deus. Em diversos momentos há referência a servas, mas que são mais que simples empregadas dado que as suas senhoras lhes ordenam que se deitem com os seus maridos e tenham filhos deles e elas obedecem; daí que lhe chame escravidão. Os homens têm, então, filhos das suas esposas e ainda filhos das servas das suas esposas, por isso é que é tão difícil manter-me a par desta genealogia. Há também um elevado grau de consanguinidade: os casamentos são frequentemente feitos entre membros da mesma família. Não deviam saber ainda o que são doenças genéticas ou doenças sexualmente transmissíveis...

O que realmente me deu a volta ao estômago foi a história de Loth, que perde a sua mulher ao escapar da destruição de Sodoma e Gomorra e depois as suas filhas, vendo que o pai já era velho e que não havia homem por perto para elas, resolveram embebedá-lo e deitarem-se com ele para engravidarem do próprio pai e propagarem a sua semente (Gen 19,31-36). Lendo isto, tentei imaginar que atrocidades se passariam em Sodoma e Gomorra para que necessitassem de ser destruídos, dado que entre as supostas pessoas de bem, as que foram poupadas à ira de Deus, já se praticavam actos realmente revoltantes.

Outra coisa que me perturbou na leitura do Génesis é a linguagem usada para se referir a actos sexuais. Não sei se o problema está no texto original ou se depende da tradução da Bíblia; aquela que tenho à mão é de 1968, o que poderá explicar em parte essa linguagem. Causa-me estranheza que se diga que um homem entrou numa mulher, para descrever a penetração durante o acto sexual - isto é demasiado explícito, é pornografia bíblica. E mais ainda que se diga que um homem conheceu uma mulher para indicar que houve uma relação sexual. Até parece que duas pessoas só se conhecem depois de fazerem sexo! Se levassem essa premissa a sério nos dias de hoje, vivíamos num mundo ainda mais promíscuo; basta olhar para o número de amigos que cada pessoa tem, em média, no Facebook. Mas porquê o sexo é mencionado na Bíblia sequer?! Pensei que o sexo era pecado, designado até como o pecado original, do qual as pessoas precisam de se lavar e purificar. Se é algo tão terrível e pecar deve ser evitado, para quê mencionar?

O próximo livro é o Êxodo, que será uma estreia para mim, pois do seu conteúdo só conheço o que vi em filmes. O cinema arranja sempre forma de embelezar tudo; desconfio que esse livro, mais ainda que o Génesis, vai ser de leitura difícil. Não garanto que o vá comentar também. A ver.

19 junho 2016

Piadinha #1

A mulher vê-se ao espelho e diz ao marido:
- Estou tão feia, tão gorda e tão mal feitinha. Preciso de um elogio...
Ele responde:
- Tens muito boa visão!

20 julho 2015

Em trânsito

Sou uma utilizadora assídua dos transportes públicos e passo diariamente umas boas horas em viagem. Na maior parte do tempo, faço a viagem a olhar pela janela e a pensar na morte da bezerra; à custa disso já cheguei a falhar a minha paragem algumas vezes, tal é a minha abstracção. Outras vezes, fico a observar os restantes passageiros. Algumas caras já são minhas conhecidas, de pessoas que têm a mesma rotina que eu, e mesmo sem nunca termos falado já sei os seus nomes, as suas paragens e até mais qualquer coisa. E quando alguma dessas caras falta, apercebo-me disso e questiono-me o que se passará com ela. Volta e meia aparecem uns espécimenes raros que me chamam a atenção pela negativa. 

Há os que gostam de partilhar a sua música com todos os passageiros, munidos do seu telemóvel. Infelizmente, são raras as vezes em que partilho o gosto musical com estas personagens. Há os que gostam de pôr os pés em cima dos assentos. A esses, gostava que um dia o único lugar sentado disponível fosse o assento onde um agricultor descansou as pernas e pousou as botas cheias de terra e estrume; talvez assim percebessem a importância de não colocar os pés nos assentos. Há também os que gostam de discutir no autocarro e tornar do conhecimento público os seus dramas pessoais. Há quem simplesmente converse num tom de voz excessivamente alto para o ambiente em que se está, criando condições para a intromissão ou bisbilhotice por parte dos restantes passageiros. 

No entanto, os espécimenes que mais me causam arrepios são os que vão para o autocarro cortar as unhas. Não consigo entender como podem achar que aquele é o local indicado para tal tarefa! Bem sei que as viagens de autocarro são demasiado longas e aborrecidas; compreendo que o tempo despendido em viagem poderia ser muito mais bem aplicado noutras actividades; compreendo até que ter as unhas grandes possa causar desconforto, mas isso não justifica que se as corte no autocarro! Vai uma pessoa, descontraidamente, no autocarro e de repente é agredida no olho por um pedaço de unha que salta do vizinho do lado! Pedaços de unha são disparados para todas as direcções, umas alojando-se no cabelo de quem está sentado à frente, outras caindo sobre o colo de quem está ao lado. Felizmente, nunca tive o infortúnio de me sentar junto a uma ave rara destas, senão ficaria de queixo caído a olhar para ela e corria o risco de levar com um pedaço de unha na boca! Desenganem-se se pensaram que este é um comportamento exclusivo das mulheres, vítimas da sua vaidade. Não, já vi vários homens a cortar as unhas no autocarro. 

Há pouco tempo li no Facebook um queixume do Rui Zink a respeito das pessoas que bocejam sem colocar a mão à frente da boca. Imediatamente identifiquei-me com o texto, pois debato-me com o mesmo problema. A vida em sociedade nem sempre é fácil, às vezes vemo-nos obrigados a suportar muita coisa desagradável para bem da convivência e porque somos civilizados. Ora, colocar a mão à frente da boca quando se boceja é um gesto tão simples que não percebo porque tantos se recusam a adoptá-lo. Tal como não percebo como alguém supostamente civilizado corta as unhas no autocarro! Talvez esses indivíduos ficassem mais bem inseridos numa população de macacos, onde a civilização ainda não chegou e até catam-se uns aos outros, logo não se incomodarão com os pedaços de unha alheios.

18 março 2015

Aceitam-se sugestões

Quem me dera ser uma pessoa mais criativa! Neste momento, o que não me falta é tempo livre à espera de ser ocupado de forma mais produtiva. O que me falta são a criatividade e uma pitada de motivação. Aceito sugestões.